sexta-feira, 1 de Maio de 2009

O tradutor

Chegou a casa, vindo de uma interminável rua e de uma infinita tarde. Junto a uma janela, o computador nos joelhos, o pescoço dobrado, as costas doridas, as mãos a enclavinharem-se, a teimosia do dever. A seu lado, num braço de sofá, folhas soltas de um livro desmembrado. Palavra a palavra, revendo frases, articulava um sentido, tentava descobrir uma significação. Por vezes o incompreensível ocupava o seu lugar, desfazendo-lhe a laboriosa construção. Matraqueando teclas, folheando dicionários, hesitando em gramáticas. Por vezes dormitava na ânsia de dormir. Eis o tradutor.
Chegara a casa vindo de profunda desolação. Uma fímbria de frio surgiu-lhe pelas frinchas da janela que era da vida o modo de a viver. Cada vez mais páginas pareciam amontoar-se por traduzir, cada vez mais o mundo lhe parecia intraduzível.
Houve uma manhã em que se entendeu finalmente com a língua estrangeira. Cegara e o mundo escrito tornou-se por igual incompreensível.

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Novidades

Muitos receiam morrer, bastantes desejam prolongar a vida, uns quantos esforçam-se activamente para que tal aconteça, poupando-se como dizem. Bem poucos se perguntam verdadeiramente para quê. Um número significativo em rigor para nada. À medida que se aproximam da recta final querem ter a paz de fazerem coisa nenhuma, forma de se alhearem de tudo o que poderia ser. Antes disso, perguntados quantos sobre novidades, respondem mecânicamente: nada de especial. Claro que há sempre o magnífico instante em que, arrastando a cadeira de rodas se procuram, já no lar, para o afago de um beijo. Vista assim é uma vida grandiosa. Pode ter ido tudo com a usura do tempo, mas ficou, inesgotável que não há espaço que consuma, a capacidade de amar. É o aleluia do humano, hossana da humanidade.

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Um mundo

Esta noite, durante um jantar amigo, cruzei-me com a explicação para este blog: o mundo da insignificância. Talvez pudesse levar essa mesma expressão a sub-título deste espaço. Já em tempo imaginei criar um território de grandiloquência. Poderia ser a ficção de um ser de excepção. Talvez um dia o fantasie. Para já a realidade ainda tem importância decisiva com todas as minudências que atrapalham o dia e ensarilham as noites.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Os caixotes

Pela noite sente-se o seu pesado arrastar. Levam no seu bojo o resto, os sobejos e os remanescentes, o que já não se quer, o que nunca se quis. Há neles o que tantos desejariam, o que muitos nem sabem que existe. Em alguns fins de jantar é um festim de desperdícios. Muitos chegam cheirar bem. São a demonstração da generosidade involuntária, da oferta inútil. Às vezes homens e cães lutam pela posse das suas entranhas. Irmanados na necessidade, rosnam contentamento. Depois esvaziam-nos indiferentes homens nocturnos, madrugadores, profissionais da remoção. Uma vida sobejante termina na nitreira. No dia seguinte recomeça o ciclo da podridão.